sábado, 8 de janeiro de 2011

O QUÊ DIRIA EINSTEIN?

Reflexões do companheiro Fidel

 

Em uma Reflexão publicada a 25 de agosto de 2010, sob o título “A opinião de um perito”, mencionei uma atividade realmente insólita dos Estados Unidos e seus aliados que, ao meu ver, sublinhava o risco de um conflito de caráter nuclear com o Irão. Fazia referência a um longo artigo do conhecido jornalista Jeffrey Goldberg, publicado na revista norte-americana The Atlantic, correspondente a setembro desse ano, titulado “O ponto de não retorno”.
Goldberg não era anti-israelita, antes pelo contrário, admirador do Israel cuja cidadania partilha com a dos Estados Unidos, e naquele país cumpriu seu serviço militar.
Na parte inicial de seu artigo escreveu textualmente: “É possível também que as ‘operações de frustração’ levadas a cabo pelos organismos de inteligência do Israel, dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de outras potências ocidentais (programas destinados a subverter o esforço nuclear iraniano através da sabotagem e, ocasionalmente, do desaparecimento coordenado cuidadosamente de cientistas nucleares) cheguem a desacelerar em alguma medida considerável o avanço do Irão.”
Os parênteses do parágrafo são também dele.
Após mencionar a enigmática frase, prossegui com a análise daquele nó górdio da política internacional que podia conduzir à guerra tão temida por Einstein. O quê diria ele se tivesse chegado a conhecer as “operações de frustração” destinadas ao desaparecimento físico dos cientistas nucleares mais capazes?
Talvez por absurda e incrível não lhe prestei demasiada atenção, porém ao ler meses depois as denúncias recentes do governo do Irão, assim como notícias e opiniões de pessoas bem informadas, voltou com força a minha mente a lembrança daquele parágrafo.
Quatro semanas antes de findar o ano 2010, uma notícia da agência AFP informou:
“Um cientista nuclear iraniano morre assassinado.
“Teerã acusa os EE.UU. e o Israel de estarem por trás de um duplo atentado.
“AFP. Novembro 30 de 2010
“‘A mão de governos ocidentais e do regime sionista está por trás dos atentados’. Mahmud Ahmadineyad não teve dúvidas na hora de procurar os culpados do duplo ataque contra peritos nucleares levado a cabo na primeira hora da manhã de ontem em Teerã. Majid Shariari, professor na Universidade Shahid Beheshti de Teerã e membro da Sociedade Nuclear do Irão, perdeu a vida e sua mulher resultou ferida em uma explosão produzida a poucos metros de sua casa. Seu colega Fereydoon Abbasi, físico especialista em laser na mesma universidade, e sua esposa resultaram feridos após um ataque de similares características. Embora em alguns meios se chegasse a anunciar a morte de Abbasi, finalmente a agência Mehr confirmou que tinha conseguido salvar a vida. Segundo a agência Fars, ‘terroristas desconhecidos’ de motocicletas se aproximaram dos veículos para colocar bombas lapa.”
“Membros do Executivo de Ahmadineyad como o ministro do Interior, Mostafa Mohamad Najjar, acusaram diretamente a CIA e o Mosad —serviços de inteligência dos EE.UU e Israel respectivamente— de estarem por trás dessas ações que supõem um novo golpe à carreira nuclear do país às portas de uma possível nova rodada de conversações com os membros do 5+1…”
“Com o atentado de ontem já são três os cientistas iranianos assassinados desde 2007. O doutor Masoud Alí Mohamadi perdeu a vida em Teerã em Janeiro passado após a explosão de uma bomba quando saía de sua casa, uma morte que ainda não foi esclarecida pelas autoridades que também acusaram as agências de inteligência ocidentais de intentar abortar o que eles consideram um direito, a carreira nuclear com fins civis. A primeira vítima no seio da comunidade científica foi Ardeshir Hosseinpour, morto em estranhas circunstâncias em 2007 na central nuclear de Isfahán.”
Não me lembro de um outro momento da história em que o assassinato de cientistas se tenha convertido em política oficial de um grupo de potências equipadas com armas nucleares. O pior é que, no caso do Irão, aplicam-no a uma nação muçulmana, com a qual, se bem podem concorrer e ultrapassá-la em tecnologia, jamais poderão fazê-lo em um terreno onde, por questões culturais e religiosas, poderia ultrapassá-los muitas vezes na disposição de seus cidadãos para morrer em qualquer instante se o Irão decidisse aplicar aos profissionais de seus adversários a mesma fórmula absurda e criminosa.
Existem outros graves acontecimentos relacionados com a chacina de cientistas, organizados por Israel, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e outras potências contra os cientistas iranianos, sobre os quais a grande mídia não informa à opinião mundial.
Um artigo de Christian Elia publicado no sítio web Rebelião, em 25 de agosto de 2010, comunica o seguinte:
“Uma explosão matou o pai dos zangões (aeronaves não tripuladas) ?do Irão?, mas é apenas o último cientista que perdeu a vida no país.
“Encontrar uma foto de Reza Baruni na Internet é uma missão impossível. Contudo, nos últimos dois dias, seu nome esteve no âmago de um mistério que tem muitos aspectos internacionais…”
“A única certeza é que o engenheiro aeronáutico iraniano Reza Baruni está morto. Sobre todo o resto paira um mistério absoluto. Baruni é considerado por todos os analistas da indústria o pai dos […] veículos aéreos não tripulados (UAV), da República Islâmica […]. Em 1 de agosto 2010 fizeram explodir sua casa.”


“Em 17 de agosto 2010, Debka (bem próximo da inteligência israelita) publica a notícia da morte de Baruni e faz conhecer suas conclusões: a casa do engenheiro iraniano voou pelo ar por causa da detonação de três engenhos explosivos muito poderosos. Baruni foi assassinado.”
“Porém o episódio mais escuro resulta em câmbio o da morte de Massud Ali-Mohammadi, docente de física nuclear na Universidade de Teerã, assassinado a 11 de janeiro de 2010 na capital iraniana. O professor Ali-Mohammadi morreu pela explosão de uma moto-bomba acionada a distância no momento em que o docente saía de sua casa para se dirigir a seu trabalho…”
Em um artigo publicado no sítio CubaDebate se informa:
“Israel reconhece que assassinou o cientista nuclear iraniano na semana passada”
“O serviço secreto israelita, o Mosad, reconheceu que assassinou Majid Shahriari na semana passada e que feriu outro físico no Irão, segundo fontes do próprio Mosad em uma operação realizada em Teerã. ‘É a última operação do chefe do Mosad’, afirmaram satisfeitos os responsáveis dos serviços secretos israelitas reunidos em sua sede de Gelilot, a norte de Telavive.”
“Gordon Thomas, perito britânico no Mosad, confirmou no jornal britânico The Sunday Telegraph que o Israel é responsável deste duplo assassinato destinado a entorpecer o programa nuclear iraniano.”
“Thomas afirma que todos os atentados israelitas dos últimos anos contra personalidades vinculadas ao projeto nuclear iraniano os cometeu a unidade Kidon (baioneta). Segundo o jornal hebreu Yediot Ahronot, esta unidade está composta por 38 agentes. Cinco são mulheres. Todos têm entre 20 e 30 anos, falam numerosas línguas -incluído o persa- e podem entrar e sair do Irão com facilidade. Sua base está no deserto do Neguev.”
Nos tempos da diáspora, a esquerda do mundo se solidarizou com o povo do Israel. Perseguidos por sua etnia e religião, muitos lutaram nas fileiras dos partidos revolucionários. Os povos condenaram os campos de extermínio que a burguesia europeia e mundial pretendiam ignorar.
Hoje as lideranças do Estado do Israel praticam o genocídio e se associam com as forças mais reacionárias do planeta.
Ainda fica por elucidar a aliança que mantiveram os dirigentes desse Estado e a África do Sul do odioso apartheid  que, em cumplicidade com os Estados Unidos, forneceram a tecnologia para desenvolver as armas nucleares destinadas a golpear as tropas cubanas que em 1975 se enfrentaram à invasão da África do Sul racista, cujo desprezo e ódio aos povos africanos em nada se diferenciavam da ideologia dos nazis, que nos campos de extermínio da Europa assassinaram milhões de judeus, russos, ciganos e de outras nacionalidades européias.
Se não tivesse sido pela revolução iraniana ?que desprovida de armas varreu o aliado melhor equipado dos Estados Unidos no flanco sul da superpotência soviética?, hoje o Xá do Irão, provido de armas nucleares, e não o Israel, seria o baluarte principal do império ianque e da NATO nessa região tão estratégica e imensamente rica em petróleo e gás para o fornecimento seguro dos países mais desenvolvidos do planeta.
Resulta um tema quase inesgotável.  

 
Fidel Castro Ruz
6 de janeiro de 2011
20h16

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O PRINCIPAL ESTÍMULO A NOSSOS ESFORÇOS

 

Reflexões do companheiro Fidel:

Foi tão impressionante a reportagem gráfica da jornalista Gladys Rubio sobre a epidemia de cólera no Haiti, publicado ontem na “Mesa Redonda”, que decidi adiar para hoje, quarta-feira, a Reflexão que anunciei na segunda-feira. O objetivo dessa reflexão era analisar desde outro ponto de vista o dramático golpe que significou para o povo haitiano o terremoto acontecido no dia 12 de janeiro deste ano, que foi seguido em menos de 10 meses por uma epidemia generalizada de cólera e por um furação.

Tais fatos aconteciam em um país que tinha sido vítima dos conquistadores, do colonialismo e da escravidão. Sua população autóctone tinha sido eliminada pela conquista e pela procura forçosa de ouro.

A nação haitiana tem como raiz centenas de milhares de seres humanos arrancados da África pelos comerciantes europeus de escravos e vendidos aos agricultores escravistas do Haiti para produzirem café, açúcar e outras mercadorias tropicais com as quais poder fornecer os emergentes mercados capitalistas.

O povo haitiano protagonizou, nos primeiros anos do século XIX, a primeira revolução social na história deste hemisfério: foi fonte de inspiração e ponto de apoio em rebelião para os que realizaram a façanha de libertar América do Sul do domínio espanhol.

A nossa solidariedade com o povo do Haiti tem uma dupla origem: nasce de nossas idéias, mas também de nossa história.

Após a revolução social que lá se levou a cabo, o colonialismo espanhol tornou Cuba, onde também incontáveis africanos tinham sido arrancados da África e vendidos como escravos, na principal fornecedora de café, açúcar e de outros produtos tropicais.

Como conseqüência desse processo, quando as colônias espanholas do Sul e da América Central conseguiram sua independência mediante cruenta e heróica luta, a colônia cubana garantia à metrópole mais receitas líquidas do que todos aqueles países antes que eles alcançassem a sua independência, fato que influiu decisivamente no destino de nossa Pátria ao longo de quase dois séculos que transcorreram posteriormente.

Há dois dias explicava como surgiu a cooperação médica com o Haiti, a qual nos levou à formação de centenas de jovens médicos desse irmão país e ao envio de uma força de profissionais cubanos da saúde. Não se trata de algo que surgiu por acaso.

Também não nos surpreendem os esforços dos Estados Unidos e da Europa para desinformar, ocultar e mentir sobre as razões da conduta de Cuba.

Um conhecido jornal britânico The Independent, de inquestionável prestígio nos meios liberais da Grã-bretanha – embora não desfrute do privilégio que Wikileaks concedeu ao jornal The Guardian e a outros conhecidos órgãos de imprensa, que consultaram com Washington os pontos mais sensíveis da informação recebida – publicou, há três dias, um atrevido artigo da jornalista Nina Lakhani, intitulado “Médicos cubanos no Haiti envergonham o mundo”. É o assunto que desejava analisar, pela ousadia com que ela chama as coisas por seu nome nesse tema, embora que isso não implique que eu compartilhe cada uma de suas apreciações sobre as razões que determinaram nossa conduta. Vou explicá-lo usando o texto da tradução e de maneira tão breve quanto possível.

“São os verdadeiros heróis – diz – do desastre do terremoto do Haiti, a catástrofe humana à beira dos Estados Unidos perante a qual Barack Obama prometeu uma monumental missão humanitária dos Estados Unidos para aliviá-la”. No entanto, os heróis acerca dos quais falamos são cidadãos do arquiinimigo dos Estados Unidos. Cuba, cujos médicos e enfermeiras fizeram com que os esforços dos Estados Unidos sejam motivos de vergonha.

“Uma brigada médica de 1 200 cubanos está trabalhandoem todo Haiti, devastado pelo terremoto e infestado pela cólera, como parte da missão médica internacional de Fidel Castro, que fez com que o Estado socialista ganhasse muitos amigos, mas pouco reconhecimento internacional.”

“... os organismos de ajuda internacional estavam sozinhos na luta contra a devastação que matou 250 000 pessoas e que deixara sem lar a cerca de 1,5 milhões. [...] profissionais da saúde cubanos tem estado no Haiti desde 1998, [...] no meio da fanfarra e da publicidade em torno da chegada da ajuda dos Estados Unidos e do Reino Unido, centenas de novos médicos, enfermeiras e terapeutas cubanos chegaram sem que ninguém quase falasse deles..."

“Estatísticas publicadas na semana passada mostram que os médicos cubanos, trabalhando em 40 centros através do Haiti, atenderam mais de 30 000 pacientes de cólera desde outubro. Eles são o maior contingente estrangeiro, recebendo aproximadamente 40 por cento de todos os pacientes que sofrem cólera. Outro grupo de médicos da Brigada cubana 'Henry Reeve', uma equipe de especialistas para casos de desastres e emergências, chegou recentemente quando foi evidente que o Haiti estava lutando por encarar a epidemia que já matou centenas de pessoas.”

“...Cuba formou 550 médicos haitianos gratuitamente na Escola Latino-americana de Medicina (ELAM), uma das mais radicais iniciativas médicas do país. Atualmente outros 400 médicos são preparados nessa escola, que oferece educação gratuita, incluindo livros de graça e um pouco de dinheiro como diária, a qualquer pessoa o suficientemente qualificada, que não possa estudar medicina em seu próprio país.

“John Kirk é um professor de estudos sobre América Latina na Universidade de Dalhousie, no Canadá, que investiga sobre as equipes médicas internacionais de Cuba. Ele disse: 'a contribuição de Cuba no Haiti é como o maior segredo do mundo. Sobre eles quase não se fala, apesar de que estão fazendo uma boa parte do trabalho pesado'.

“Esta tradição data de 1960, quando Cuba enviou um punhado de médicos para o Chile, devastado por um forte terremoto, seguido por uma equipe de 50 membros enviados para a Argélia no ano 1963. Isto aconteceu quatro anos depois do triunfo da revolução, que viu como quase metade dos 7 000 médicos do país [...] partiam para os Estados Unidos."

“...O programa mais conhecido é a Operação Milagre, que começou com oftalmologistas que tratavam pacientes com cataratas em empobrecidos povos venezuelanos em troca de petróleo. Esta iniciativa devolveu a visão a 1,8 milhões de pessoas em 35 países, incluída a de Mario Terán, o sargento boliviano que assassinou Che Guevara no ano 1967.

“A Brigada 'Henry Reeve', rejeitada pelos estadunidenses após a passagem do furação Katrina, foi o primeiro grupo que chegou ao Paquistão depois do terremoto de 2005 e o último em sair seis meses mais tarde.”

“...segundo o professor Kirk. '... Também é uma obsessão de Fidel pela qual obteve votos nas Nações Unidas'.

“Uma terça parte dos 75 000 médicos de Cuba, junto de outros 10 000 trabalhadores da área da saúde, trabalham atualmente em 77 países pobres, incluído El Salvador, o Mali e Timor-Leste. Isto faz com que Cuba tenha um médico para cada 220 habitantes, uma das taxas mais elevadas do mundo, [...] um médico para cada 370 habitantes na Inglaterra.

“Onde quer que sejam convidados, os cubanos aplicam o seu modelo integral focalizado na prevenção, visitando as famílias nas suas moradias, monitorando ativamente a saúde infantil e materna. Isto produziu 'resultados surpreendentes' em zonas de El Salvador, de Honduras e da Guatemala, reduzindo as taxas de mortalidade infantil e materna, diminuindo as doenças infecciosas e deixando por trás os trabalhadores locais da saúde melhor capacitados, segundo a investigação do professor Kirk.

“A formação médica em Cuba tem uma duração de seis anos – mais um ano do que no Reino Unido - [...] cada formado trabalha como médico de família durante três anos pelo mínimo.”

“Esse modelo ajudou Cuba a conseguir alguns índices de saúde mais invejáveis do mundo todo, apesar de investir apenas 400 dólares per capita no ano passado se comparado com os 3 000 dólares investidos no Reino Unido e com os 7 500 dólares per capita investidos nos Estados Unidos, de acordo com as cifras da Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento.

“A taxa de mortalidade infantil, uma dos indicadores mais confiáveis da saúde da nação é de 4,8 em cada 1 000 nascidos vivos, comparável com a taxa do Reino Unido e menor do que a taxa dos Estados Unidos. Apenas cinco por cento das crianças nascem com baixo peso, um fator fundamental para a saúde a longo prazo...”

“Imti Choonara, um pediatra de Derby [...] que participa nos workshops anuais em Camagüey, a terceira cidade de Cuba, diz: 'A saúde em Cuba é assombrosa e a chave é o médico da família, [...] e está focalizada na prevenção... A ironia é que os cubanos chegaram ao Reino Unido, após o triunfo da Revolução para conhecerem como era que funcionava o NHS (Sistema Nacional de Saúde). Eles pegaram o que viram, aperfeiçoaram-no e o desenvolveram, entretanto nós vamos rumo ao modelo estadunidense'.

“...o bloqueio norte-americano impede que muitas companhias estadunidenses comerciem com Cuba e persuade outros países a seguirem o seu exemplo. O relatório de 2009-2010 inclui remédios contra o câncer infantil, o VIH e a artrite, alguns anestésicos, bem como os produtos químicos necessários para diagnosticar infecções e para preservar órgãos.”

“...os cubanos estão muito orgulhosos e apóiam sua contribuição no Haiti e em outros países pobres, contentes de estarem protagonizando uma façanha na areia internacional...”

“A formação médica é outro exemplo. Atualmente há 8 281 alunos de mais de 30 países estudando na ELAM, que no mês passado comemorou o seu 11º aniversário. O Governo tenta inculcar um sentido de responsabilidade nos estudantes no intuito de que eles trabalhem no seio de suas próprias comunidades pobres durante pelo menos cinco anos.

“Damien Joel Suárez, 27 anos, um estudante de segundo ano de Nova Jersey, é um dos 171 estudantes norte-americanos; já se formaram 47. Ele rejeita as acusações de que a ELAM faz parte da maquinaria de propaganda cubana. É claro que o Che aqui é um herói, mas a gente não é obrigada a reverenciá-lo'.”

Nem todas as coisas que se falam sobre Cuba são favoráveis. O artigo contém também críticas, várias das quais compartilhamos e, por vezes, somos ainda mais severos do que o jornal The Independent. No artigo se fala sobre as baixas rendas e as escassezes. Independentemente de nossos erros, não se fala sobre o fato de que ao longo de mais de 50 anos de bloqueio, de agressões e de ameaças, nosso país tem-se visto obrigado a investir enormes quantidades de energia, de tempo e de recursos para enfrentar os embates do império mais poderoso que tem existido na história.

Apesar disso, é admirável a sinceridade e a clareza com que Nina Lakhani expõe, e The Independent publica, esse valente artigo sobre o que significa para o sofrido povo haitiano uma tragédia que durante sua primeira fase já custou a vida de aproximadamente 3 000 vítimas, dentre elas, crianças, jovens e adultos, muitos dos quais sofrem desnutrição e outras doenças, sem que por vezes disponham de madeira para ferver a água que eles consomem.

As notícias procedentes desse irmão país informam que até hoje, quarta-feira 29, outras 717 pessoas foram atendidas pela Missão Médica Cubana. Há já cinco dias que não se informam falecidos. A taxa de mortalidade entre os pacientes atendidos por Cuba, que já atingem a cifra de 48 931 pessoas, foi reduzida a 0,55%. A cifra oficial de pessoas afetadas pela cólera era de 130 534 e a cifra de falecidos era de 2 761 pessoas para uma taxa de 2,1%. Luta-se para que métodos mais eficientes sejam aplicados em todos os centros que combatem a epidemia. Os Grupos de Penetração da Brigada “Henry Reeve” – integrados por cubanos, latino-americanos e haitianos formados pela ELAM – são já 42 e podem visitar qualquer uma das subcomunas mais isoladas do Haiti. Aliás, têm 61 centros de atendimento aos pacientes afetados pela cólera.

O esforço de nosso país em prol da saúde humana, que começou logo depois do triunfo da Revolução, como exprime o artigo publicado pelo jornal The Independent pode ser apreciado no fato de que no próximo ano formar-se-ão na República Bolivariana da Venezuela 8 000 médicos que foram educados na teoria e na prática com a cooperação dos especialistas cubanos da saúde. A Venezuela também alcançará níveis de saúde que a colocarão entre as primeiras do mundo. Tão encorajadores resultados constituem o principal estímulo a nossos esforços.

Fidel Castro Ruz

29 de dezembro de 2010

20h07

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

CUBA ESTÁ EDUCANDO POBRES DO BRASIL

 

Gisele Antunes Rodrigues: das ruas de São Paulo a Cuba, onde está estudando Medicina.

"O conhecimento liberta", dizia José Marti. Cf. abaixo e em anexo, o depoimento de Gisele, que fez um pedido especial ao povo brasileiro, quando esteve de férias no Brasil, em setembro de 2010:  "Peço ao povo brasileiro que continue lutando."

Leia o anexo e veja que beleza de testemunho de alguém que está dando a volta por cima.

Que a garra e a sabedoria de Gisele Antunes nos acompanhem em 2011!

Informe de dez/2010:

1) 53 jovens Sem Terra do MST já se formaram em Medicina em Cuba e outros 98 jovens Sem Terra estão cursando Medicina em La Havana, capital cubana. Outros 10 jovens camponeses brasileiros, da Via Campesina, estão fazendo mestrado em Agroecologia, em Cuba. E muitos outros estão estudando em outros cursos na pequena ilha que é a pátria de um grande povo.

2) A campanha do Governo cubano para que todas as pessoas possam adquirir o direito de ler e escrever percorreu o mundo. O método cubano denominado “Sim, eu posso” está em execução em mais de 29 países e já transformou quatro deles em territórios livres do analfabetismo: Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Equador. Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) apontam que o Brasil ainda possui 14 milhões de analfabetos. Para contribuir com a superação dessa realidade, 13 educadores cubanos passaram o ano de 2010 trabalhando junto com educadores brasileiros na alfabetização de adultos em sete estados: Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Pará, Alagoas, Alagoas, Rio de Janeiro e Bahia. Em parceria com o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais - e com alguns municípios, 2.904 trabalhadores e trabalhadoras rurais se graduaram com o método “Sim, eu posso”, que utiliza vídeos para auxiliar o processo de aprendizado. Outros 3.248 continuam estudando, nas 295 turmas em andamento nos assentamentos e acampamentos.

Um abraço afetuoso. Gilvander Moreira, frei Carmelita.

e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
www.gilvander.org.br
www.twitter.com/gilvanderluis
skype: gilvander.moreira

Gisele Antunes Rodrigues: das ruas de São Paulo a Cuba, onde estuda Medicina

“Ser culto é o único modo de ser livre.” (José Martí)

Ex-menina de rua de São Paulo, SP, estuda Medicina em Cuba

Graças a alguns “papa-hóstias”, como costumo chamar meus amigos da igreja, fiquei sabendo da história dela durante um agradável almoço na Feijoada da Lana, na Vila Madalena, a melhor da cidade. Repórter vive disso: tem que andar por aí, conversar com todo mundo para descobrir as novidades, ficar sabendo de personagens cuja vida vale a pena ser contada.

É este o caso da jovem Gisele Antunes Rodrigues, de 23 anos, ex-menina de rua de São Paulo, nascida em Ribeirão Pires, que deu a volta por cima e hoje está no terceiro ano de Medicina. Detalhe: ela estuda no Instituto Superior de Ciências Médicas de La Habana, em Cuba, onde estão matriculados outros 275 brasileiros.

Gisele veio passar as férias no Brasil e, na próxima semana, volta a Cuba. Como ela foi parar lá? Ninguém melhor do que a própria Gisele, que escreve muito bem, para nos contar como é a vida lá e como foi esta sua incrível travessia das ruas de São Paulo até cursar uma faculdade de Medicina em Cuba.

A meu pedido, Gisele enviou seu depoimento nesta sexta-feira e eu pedi autorização para poder reproduzi-lo aqui no Balaio. Tenho certeza de que esta comovente história com final feliz pode servir de estímulo e inspiração a outros jovens que vivem em dificuldades.

Para: Ricardo Kotsch[1][1]

Olá!!!
Autorizo o senhor a publicar essa história. Caso deseje, pode corrigir os erros. Mas, por favor, sem sensacionalismo. Tente seguir mais o menos o texto abaixo. Desculpa por escrever isso, mas eu já tive problemas.

Gosto do seu blog. Vou tentar acessá-lo em Cuba.

Abraços.

Gisele Antunes Rodrigues

Obs.: Segue, abaixo, o depoimento de Gisele.

Só mais uma brasileira

Saí de casa com 9 anos de idade, porque minha mãe espancava eu e meu irmão. Não tínhamos comida, o básico para sobreviver. Meu pai nunca foi presente. É um alcoólatra que só vi duas vezes na vida. Minha mãe é uma mulher honesta, mas que não conseguia educar seus filhos. Já foi constatado que ela tem problemas mentais.

Ela trabalhava como cigana na Praça da República (em São Paulo, SP). Quando eu fugi de casa segui esse caminho, e encontrei uma grande quantidade de meninos e meninas de rua. Apresentei-me a um deles, este me ensinou como chegar em um albergue para jovens, e a partir desse momento passei a ser menina de rua. Só comparecia nessa instituição para comer, tomar banho e ter um pouco de infância (brincar). No meu quinto dia na rua, comecei a cheirar cola e depois maconha.

Alguns educadores preocupados com a minha situação tentavam me orientar, mas de nada valia. Foi quando me apresentaram a uma religiosa, a irmã Ana Maria, que me encaminhou para um abrigo, o Sol e Vida. Passei uns três anos lá e deixei de usar drogas. Esta instituição não era financiada pelo Governo. Quando foi fechada, me encaminharam a outros abrigos da prefeitura, entre eles o Instituto Dom Bosco, do Bom Retiro. E assim foi, até os 17 anos.

Para alguém que usa droga, não era fácil seguir regras. Foi por muita persistência e um ótimo trabalho de vários educadores que eu consegui deixar as drogas, sair da desnutrição e recuperar a saúde após anemia grave.

Na infância, era rebelde, não queria aceitar a minha situação. Apenas queria ter uma família. Mas havia algo que eu valorizava: a escola e os cursos que eu fazia na adolescência. Aos 14 anos de idade, comecei a jogar futebol, tive a minha primeira remuneração. Aos 16 anos, entrei em uma empresa, a Ericsson, que capacitava jovens dos abrigos para o mercado de trabalho. Essa empresa financiou meu curso de auxiliar de enfermagem e o início do técnico. O último não foi possível concluir.

Explico: existe uma lei nas instituições públicas segunda a qual o jovem a partir dos 17 anos e 11 meses não é mais sustentado pelo governo, tem que se manter sozinho. Como eu não tinha contato com a minha família, quando se aproximou a data de completar essa idade, entrei em desespero.

A sorte foi que a entidade, o Instituto Dom Bosco, do Bom Retiro, criou um projeto denominado Aquece Horizonte. Este projeto é uma república para jovens que, ao sair do abrigo, podem ficar lá até aos 21 anos. Os coordenadores e patrocinadores acompanham o desenvolvimento do jovem neste período de amadurecimento.

As regras mais básicas da república são: trabalhar, estudar e querer vencer na vida. No segundo ano de república, eu desejava entrar na universidade, mas sabia que não tinha condições de pagar a faculdade de enfermagem ou conseguir passar na universidade pública.

Optei então por fazer a faculdade de pedagogia. É uma área que me encanta, e a única que podia pagar. No primeiro semestre da faculdade de pedagogia, um educador do abrigo, o Ivandro, me chamou pra uma conversa e me informou sobre um processo seletivo para estudar medicina em Cuba. Fiquei contente e aceitei participar da seleção.

Passei pelo processo seletivo no consulado cubano e estou desde 2007 em Cuba. Iniciei o terceiro ano de medicina no dia 06 de setembro de 2010. São 7 anos no país, sendo 6 de medicina e um de pré-médico.

Ir a Cuba foi minha maior conquista. Além de aprender sobre a medicina, aprendo sobre a vida, a importância dos valores. Antes de ir, sempre lia reportagens negativas sobre o país, mas quando cheguei lá, não foi isso que vi. Em Cuba, todos têm direito a educação, saúde, cultura, lazer e o básico pra sobreviver.

Li em muitas revistas que o Fidel Castro é um ditador, e descobri em Cuba, que ele é amado e idolatrado pelos cubanos. Escrevem que Cuba é o país da miséria. Mas de que tipo de miséria eles falam? Interpreto como miséria o que passei na infância. Em casa, não tinha água encanada, luz, comida...

Recordo que tinha dias em que eu, meu irmão e minha mãe não conseguíamos nos levantar da cama devido à fraqueza por falta de alimento. Tomávamos água doce pra esquecer a fome. Então, quando abro uma revista publicada no Brasil e nela está escrito que Cuba é um país miserável, eu me pergunto: se em Cuba, onde todos têm direito a saúde, educação, moradia, lazer e alimento, como podemos denominar o Brasil?

Temos um país com riqueza imensa, que conquistou o 8º lugar no ranking dos países mais ricos, mas sua riqueza se concentra nas mãos de poucos, com uns 60% da população vivendo em uma miséria verdadeira, pior que a miséria da minha infância.

Cuba sofre um embargo econômico imposto pelos Estados Unidos por ser um país socialista e é criticado por outros governos. No entanto, consegue dar bolsa para mais de 15 mil estrangeiros de vários países, se destaca na área da saúde (gratuita), educação (colegial, médio, técnico e superior – gratuito para todos) e esporte (2º lugar no quadro de medalhas, na história dos Jogos Pan-americanos), é livre de analfabetismo.

A cada mil nascidos vivos morrem menos de 4. Vivenciando tudo isso, eu queria também que o Brasil fosse miserável como Cuba, como é escrito em várias revistas. Acho que o brasileiro estaria melhor e não seria tão comum encontrar tantos jovens sem educação, matando, roubando e se drogando nas ruas.

Vou passar mais quatro anos em Cuba e não quero deixar o curso por nada.

Desejo concluir a faculdade e ajudar esse povo carente que sonha com melhoras na área da saúde, quero ajudar outros jovens a realizar os seus sonhos, como me ajudaram. Também pretendo apoiar meu irmão, que deseja estudar Direito.

Tenho meu irmão como exemplo de superação. Saiu de casa com 13 anos de idade, mas não foi para uma instituição governamental. Morou em um cômodo que seu patrão lhe ofereceu. Enquanto eu estudava e fazia cursos, ele estava trabalhando para ter o pão de cada dia. Hoje, ele é um homem com 25 anos de idade, casado e tem uma filha linda, e mesmo assim encontra tempo pra me apoiar e me dar conselhos.

Foi muito bom visitar o Brasil. Depois de longos 13 anos tive um tipo de comunicação com a minha mãe. Isso pra mim é uma vitória. Quero estar próxima dela quando voltar.

Conto um pouco da minha história, mas sei que muitos brasileiros ultrapassaram barreiras piores, até realizarem seus sonhos. Peço ao povo brasileiro que continue lutando. É período de eleições, peço também que todos votem com consciência, escolha a pessoa adequada pra administrar o nosso país tão injusto.

Gisele Antunes Rodrigues,

Outubro de 2010.



[1][1] Matéria originalmente publicada no Balaio do Kotscho

domingo, 2 de janeiro de 2011

MENSAGEM DE FIDEL AOS ESTUDANTES

17 de Novembro de 2010



Caros estudantes universitários e demais convidados:



Apraz-me imenso a presença nesta reunião do Ministro do ensino superior, dos Reitores das universidades de Havana, de uma representação da União de Jovens Comunistas, presidida por sua Primeira-Secretária, da Direção Provincial e Nacional da Federação de Estudantes do Ensino Médio.



Lembro-me daquele 17 de novembro de 2005. Comemorava-se o Dia Internacional do Estudante. Vocês os universitários decidiram que eu falasse nesse dia. Completavam-se, disseram-me, 60 anos de meu ingresso na Universidade, finalizando o ano 1945. Nessa altura era um bocado mais jovem do que hoje; tinha a idade de vocês. Mas juntos temos vivido uma etapa da vida.



Na minha opinião, aquela reunião que tivemos na Universidade de Havana, há cinco anos, jamais se repetiria. Já tinha 79 anos. Porém há apenas dois meses, para ser mais exato, quando apresentei na Aula Magna o segundo livro de nossa guerra revolucionária: “A contra-ofensiva estratégica”, em 10 de setembro de 2010, ao finalizar, conversei com muitos veteranos daquelas lutas e quando saia do recinto cumprimentei um entusiasta grupo de dirigentes estudantis universitários que ficaram à minha espera, conversei com eles, explicaram-me sua ansiosa espera do dia 17 para que lhes falara do discurso.



Gostei daquele grupo. Não promoviam uma “revolução cultural”, queriam escutar novamente uma reflexão sobre as idéias expostas naquele dia.



Esse encontro já lhes pertencia. Era da opinião que transcorreria muito tempo entre o dia 10 de setembro e o 17 de novembro; outras coisas passavam por minha mente e lhes respondi: “ver-nos-emos nesse dia”.



Contudo sabia que aquele discurso provocou mal-estar, devido ao momento que estávamos a viver perante um poderoso inimigo que nos ameaçava cada vez mais, bloqueava cruelmente nossa economia e esforçava-se por espalhar o descontento, promovendo a violação das leis e as saídas ilegais do país, privando-o de uma reserva de força de trabalho jovem, cultural e tecnicamente bem preparada. Muitos deles eram levados mais tarde à realizar atividades ilícitas e a delinqüir.



Também estava o fato de minha tendência à autocrítica e à ironia com relação a nossas próprias ações. Apesar de ser cáustico em minhas palavras, defendi princípios e não fiz concessões.



Lembrava tudo isso, mas não as palavras exatas que usei, a totalidade dos argumentos expressados, e a considerável extensão do discurso.



Solicitei aos arquivos do Conselho de Estado uma cópia textual do mesmo, e deparei com 115 páginas em espaço simples que implica mais de 200 como estas que apenas excedem as 40.



Durante as últimas semanas o trabalho tem sido intenso, dedicado a muitas tarefas; entre elas, reuniões de entrevistas com o diretor principal da web site Global Research, Michel Chossudovsky; a esmagadora vitória eleitoral da extrema-direita dos Estados Unidos e, dentro dela, a do grupo fascista do Tea Party, a crise econômica sem precedentes; guerra de divisas, acompanhada de perto pela Cúpula do G-20 em Seúl; a Cúpula da APEC em Yokohama, Japão e daqui a dois dias, a Cúpula da NATO em Portugal nos dias 19 e 20 de novembro, que devemos acompanhar de perto.



Apesar disso, não me resignava a prorrogar ou suspender a data de nosso encontro.



Apoiado no texto original, fui pinçando as idéias principais do discurso que proferi naquela ocasião, para apresentá-las com as mesmas palavras que utilizei nesse momento. Omiti, visando ser breve, numerosos exemplos que complementavam os critérios que sustentava.



Confesso que fiquei surpreendido com a atualidade das idéias expostas que, transcorridos cinco anos, são mais atuais do que naquele momento, visto que muitas tinham relação com o futuro, e os fatos se desenvolveram tal como foram previstos; acontece que hoje, com os conhecimentos disponíveis sobre fenômenos como a mudança climática, a crise econômica que ultrapassa qualquer outra anterior, os perigos de guerra e a derivação do poder imperial para o fascismo, exigem dos jovens universitários um máximo de consagração e esforço na batalha ideológica.



Uma das primeiras idéias que expressei foi a seguinte:



“Os fatores que fizeram possível a vida no planeta Terra surgiram após bilhões de anos, essa vida frágil que pode transcorrer entre uns poucos graus por baixo de zero e uns poucos graus por cima de zero...”



Eu tentava recordar como eram aquelas universidades, a que nos dedicávamos, que nos preocupava. Nos preocupávamos com esta pequena ilha. [...] Ainda não se falava de globalização, não existia a televisão, não existia a Internet, não existiam as comunicações instantâneas de um extremo ao outro do planeta [...] Nos meus tempos, 1945, nossos aviões de passageiros apenas chegavam a Miami...”



“... acabava de acontecer uma terrível guerra, que custou por volta de 50 milhões de vidas, e falo do momento aquele, 1945, quando ingressei na universidade, em 4 de setembro; bom, ingressei nessa época, e vocês, logicamente, decidiram celebrar aquele aniversário num dia qualquer.“





Mais para frente perguntei: Que mundo é esse onde um império bárbaro proclama o direito de atacar por surpresa e de maneira preventiva 60 ou mais países, que é capaz de levar a morte a qualquer canto do mundo, utilizando as mais sofisticadas armas e técnicas de morte?



“Atualmente o império ameaça com atacar o Irã se produz combustível nuclear.”



“Atualmente se debate a nível internacional quais o dia e a hora, ou se será o império, ou utilizará — como fez no Iraque — o satélite israelense para o bombardeio preventivo e imprevisto de centros de pesquisa cujo objetivo é obter a tecnologia de produção do combustível nuclear.”



“... aquela nação exige seu direito a produzir combustível nuclear como qualquer outra nação entre as industrializadas e não ser obrigada a destruir a reserva de uma matéria prima, que serve não só como fonte energética, mas também como fonte de numerosos produtos, fonte de fertilizantes, fonte de têxteis, fonte de inúmeros materiais que hoje têm um uso universal.”



“... veremos que aconteceria se bombardeassem o Irã com o objetivo de destruir qualquer instalação que se dedique à produção de combustível nuclear.”



“Nós jamais pensamos na fabricação de armas nucleares. Nós temos outro tipo de armas nucleares, são nossas idéias [...] armas do poder das nucleares em virtude do poder invencível das armas morais, [...] e também não procurar armas biológicas [...] Armas para combater a morte, para combater a Aids, para combater as doenças, para combater o câncer, a isso dedicamos nossos recursos...”



“... em qualquer parte do mundo encontra-se um cárcere secreto onde torturam os defensores dos direitos humanos; são os mesmos que em Genebra, como cordeirinhos, votam, um a um, contra Cuba, o país que não conhece a tortura, para honra e glória desta geração, para honra e glória desta Revolução, para honra e glória de uma luta pela justiça, pela independência, pelo decoro humano que deve manter incólume sua pureza e sua dignidade!”



hoje de manhã chegavam notícias informando sobre o uso de fósforo vivo em Al-Fallüjah, ali onde o império descobriu que um povo, praticamente desarmado, não podia ser vencido e os invasores viram-se numa situação onde não podiam ir embora nem ficar: se iam embora, voltavam os combatentes; se ficavam, necessitavam essas tropas noutros lugares. Já morreram mais de 2 000 jovens soldados norte-americanos, e alguns se perguntam, até quando continuaram morrendo numa guerra injusta?...



“... converteram a entrada ao exército numa fonte de emprego, contratam desempregados, e muitas vezes tentam contratar o maior número de negros norte-americanos para suas guerras injustas, e chegam notícias de que cada vez menos negros norte-americanos estão dispostos a se inscreverem no exército, apesar do desemprego e da marginalização a que são submetidos...”



“Procuram latinos, imigrantes que, tentando escapar da fome, atravessaram a fronteira, essa fronteira onde todos os anos morrem mais de 500 imigrantes, muitos mais em 12 meses que os que morreram durante os 28 anos que durou o muro de Berlim.”



“... entravam os jovens nesta universidade, que não era, certamente, a universidade dos humildes; era a universidade da classe média, a universidade dos ricos do país, mas os jovens não se importavam com as idéias de sua classe e muitos deles eram capazes de lutar, e assim o fizeram ao longo da história de Cuba.



“Oito estudantes foram fuzilados em 1871 e foram o alicerce dos mais nobres sentimentos e do espírito de rebeldia de nosso povo...”



“Mella foi um deles, também pertencente à classe média; porque os das classes mais pobres, os filhos dos camponeses, não sabiam ler nem escrever...”



“... mencionei Mella, poderia mencionar Guiteras, poderia mencionar Trejo, que morreu [...] um 30 de setembro, na luta contra Machado;



“... quando a tirania batistiana voltou com todo seu rigor, muitos estudantes lutaram e muitos estudantes morreram, e aquele jovem de Cárdenas, Manzanita, como lhe chamavam, sempre rindo, sempre amável, sempre carinhoso com os demais, se destacava pela sua valentia, sua integridade [...]quando enfrentava a polícia.”



Se você visita a casa onde viveu Echeverría — José Antonio, vamos chamá-lo assim —, percebe que é uma casa boa, uma excelente casa. Vejam só como os estudantes não se importavam com sua origem social, nessa idade de tanta esperança, de tantos sonhos.



Naquela universidade, para estudar medicina havia apenas uma faculdade e um só hospital docente, e muitos ganhavam prêmios, primeiro prêmio em medicina e alguns, inclusive, de cirurgia sem terem operado nunca a ninguém.



“Alguns o conseguiam [...] Assim surgiram bons médicos, não uma massa de bons médicos — sim havia uma massa [...] que não tinham emprego, e quando triunfou a Revolução, foram precisamente para os Estados Unidos, e ficou a metade 3 000 e 25% dos professores. E daí partimos para o país de hoje, que se ergue já quase como capital da medicina mundial.



“... o país [...] já tem mais de 70 000 médicos.”

“Nós ingressamos na universidade finalizando o ano 1945, e iniciamos nossa luta armada no quartel Moncada em 26 de julho de 1953, [...] quase oito anos depois, e a Revolução triunfa cinco anos, cinco dias e cinco meses após o Moncada, e depois de um longo percurso pelos cárceres, pelo exílio, e pela luta nas montanhas. ”

“... não conhecíamos nem sequer muito bem as leis de gravidade, íamos encosta acima lutando contra o império, já que era o mais poderoso, [...] quando ainda existia outra superpotência, [...] foi marchando encosta acima que ganhamos experiência, que nosso povo e nossa Revolução se fortaleceram até chegar aqui.”



“... o ser humano é o único capaz, [...] de passar por cima de todos os instintos, [...] a natureza lhe impõe os instintos, a educação impõe as virtudes...”



“...apesar da diferença entre os seres humanos, possam ser um numa dada altura ou [...] ser milhões através das idéias.”



São as idéias as que nos unem, são as idéias as que nos fazem um povo combatente, são as idéias as que nos fazem já não só individualmente, mas sim coletivamente revolucionários, e é então [...] quando um povo jamais pode ser vencido...”



“... aqui a 90 milhas do colossal império, o mais poderoso que existiu jamais ao longo da história, e passaram 46 anos e lá está mais distante que nunca conseguir fazer ajoelhar a nação cubana, aquela que ofenderam e humilharam durante algum tempo...”





“Acho que foi (Ignácio) Agramonte, outros dizem que (Carlos Manuel de) Céspedes, quem, respondendo aos pessimistas quando ficou com 12 homens, exclamou: [...] com 12 homens se faz um povo [...] isso que se chama uma consciência revolucionária, que é a soma de muitas consciências [...] É filha do amor à Pátria e de amor ao mundo, não esquece aquilo de que Pátria é humanidade, proferido há mais de 100 anos.”



“Não esquecer jamais aqueles que durante anos foram nossa classe operária e trabalhadora, que viveram as décadas de sacrifício, os bandos mercenários nas montanhas, as invasões como a da Baía dos Porcos, os milhares de atos de sabotagens que custaram vidas de nossos trabalhadores açucareiros, da cana-de-açúcar, industriais, do comércio ou na marinha mercante, ou na pesca, os que de repente eram atacados com canhões e bazucas, só porque éramos cubanos, só porque queríamos a independência, só porque queríamos melhorar a sorte de nosso povo...”



“Cuba fala quando tenha que falar e Cuba tem muitas coisas que dizer, mas não está com pressa nem impaciente. Sabe muito bem quando, onde e como pode desferir um golpe ao império, a seu sistema e a seus lacaios.”

“... acho que esta humanidade e as grandes coisas que é capaz de criar, devem ser preservadas enquanto possam ser preservadas.”



“... este admirável e maravilhoso povo, ontem semente e hoje árvore crescida e com raízes profundas; ontem cheio de nobreza em potência e hoje cheio de nobreza real; ontem cheio de conhecimentos em seus sonhos e hoje cheio de conhecimentos reais, quando apenas está começando nesta gigantesca universidade que é hoje Cuba.”



“... vão surgindo novos quadros e quadros jovens.”



“Como vocês sabem, estamos em meio de uma batalha contra os vícios, contra os desvios de recursos, contra o roubo...”



“... não pensem que o roubo de recursos e de materiais é de hoje, ou do 'período especial', o 'período especial' agravou isso, porque o 'período especial' criou muitas desigualdades e o 'período especial' tornou possível que muitas pessoas tivessem muito dinheiro.”



“Do tempo que estou falando, para produzir uma tonelada de betão, se consumiam 800 quilos de cimento e uma tonelada de um bom betão [...] deve ser de mais ou menos 200 quilos. Vejam como se esbanjava, vejam como se desviavam recursos, como se roubava.”



“Nesta batalha contra os vícios não haverá trégua [...] e nós apelaremos à honra de cada setor. Estamos certos de uma coisa: de que em cada pessoa há uma alta dose de vergonha. Quando ela fica pensando não é um juiz severo, apesar de que, segundo minha opinião, o primeiro dever de um revolucionário é ser sumamente severo consigo próprio.”



“Crítica e autocrítica, é muito correto, isso não existia; mas não, se vamos travar a batalha devemos usar projéteis de maior calibre, é preciso utilizar a crítica e a autocrítica na sala da aula, na organização de base do Partido, e depois fora dela, depois no município e depois no país.”



“Posteriormente poderão surgir outras perguntas: Quanto ganhamos? Caso surgir a pergunta de quanto ganhamos, começaria a compreender-se o sonho de cada quem viva de seu salário ou de sua justíssima aposentadoria.”



“... temos ganhado consciência e que a vida toda é um aprendizado, até o último segundo, e começas a ver muitas coisas num momento...”



“Uma conclusão que tirei após muitos anos: entre muitos erros que todos temos cometido, o erro mais importante foi acreditar que alguém sabia de socialismo, ou que alguém sabia como se constrói o socialismo. Parecia ciência sabida, tão sabida como o sistema elétrico concebido por alguns que se consideravam peritos em sistemas elétricos. [...] seriamos estúpidos se acreditarmos, por exemplo, que a economia –e que me perdoem as dezenas de milhares de economistas que há no país- é uma ciência exata e eterna, e que existiu desde a época de Adão e Eva.



“Perde-se todo o senso dialético quando alguém acredita que essa mesma economia de hoje é igual a aquela de 50 anos atrás, ou 100 anos, ou há 150 anos, ou é igual à época de Lênin ou à época de Carlos Marx. A mil léguas de meu pensamento o revisionismo, faço um verdadeiro culto a Marx, a Engels e a Lênin.”



Quando estudante soube teoricamente o que era comunismo utópico, descobri que eu era um comunista utópico, porque todas minhas idéias partiam de: “Isto não é bom, isto é mau, isto é um erro. Como vão surgir as crises de superprodução e a fome quando há precisamente, mais capacidade de criar riquezas. Não seria mais simples produzi-las e reparti-las ?



Naquela altura parecia, como também achava Carlos Marx na época do Programa de Gotha, que o limite à abundancia radicava no sistema social; parecia que na medida em que se desenvolviam as forças produtivas podiam produzir, quase sem limites, o que o ser humano precisava para satisfazer suas necessidades essenciais de tipo material, cultural, etc.



“Quando escreveu livros políticos, como O 18 Brumário, As lutas Civis na França, era um gênio escrevendo, tinha uma interpretação claríssima. Seu Manifesto Comunista é uma obra clássica. Você pode analisá-la, pode ficar mais o menos satisfeito com umas coisas ou com outras. Eu passei do comunismo utópico para um comunismo baseado em teorias serias do desenvolvimento social...”



“Neste mundo real, que deve ser mudado, todo estratega e táctico revolucionário, tem o dever de conceber uma estratégia e uma estratégia que guiem ao objetivo fundamental de cambiar este mundo real. Nenhuma tática ou estratégia que divida seria boa.



“Tive o privilégio de conhecer aos da Teologia da Libertação uma vez no Chile, quando visitei a Allende no ano 1971, e lá encontrei muitos padres ou representantes de diversas denominações religiosas, e colocavam a idéia de juntar forças e lutar, sem levar em conta suas crenças religiosas.



“O mundo está precisando desesperadamente de uma unidade, Sé não conseguirmos conciliar o mínimo dessa unidade, não chegaremos a lugar nenhum.



“Lênine, sobre tudo estudou as questões do Estado; Marx não falava da aliança operário-camponesa, morava num país com grande auge industrial; Lênine viu o mundo subdesenvolvido, viu aquele país onde 80% ou 90% era camponês, e embora tivesse uma força operária poderosa nas ferrovias e nalgumas industrias, Lênine viu com absoluta clareza a necessidade da aliança operária-camponesa, da qual ninguém tinha falado, todos tinham filosofado, mas não tinham falado ao respeito. E num enorme país semi-feudal, semi-subdesenvolvido, é onde se produz a primeira revolução socialista, a primeira tentativa verdadeira de uma sociedade igualitária e justa; nenhuma das precedentes que foram escravistas, feudais, medievais, ou anti-feudais, burguesas, capitalistas, embora falassem muito em liberdade, igualdade e fraternidade, nenhum se propôs jamais uma sociedade justa.



“Ao longo da história, o primeiro esforço humano sério tentando criar a primeira sociedade justa, começou há menos de 200 anos...”



“Com dogmatismo jamais se tivesse chegado a uma estratégia. Lênine nos ensinou muito, porque Marx nos ensinou a compreender a sociedade; Lênine nos ensinou a compreender o Estado e o papel do Estado.”



“... quando a URSS se derrubou e ficou sozinha, muita gente, entre elas nós, os revolucionários cubanos. Mas nós sabíamos o que devíamos fazer, e o que tínhamos de fazer, quais eram nossas opções. Também estava o resto dos movimentos revolucionários em muitas partes travando sua luta. Não direi quais, não vou dizer quem; mas se tratava de movimentos revolucionários muito sérios, nos perguntaram se negociavam ou não perante aquela situação desesperada, se continuavam lutando ou não, ou se negociavam com as forças contrárias procurando uma paz, quando nós sabíamos a que conduzia aquela paz.”



“... Eu lhes dizia: “Vocês não nos podem pedir nossa opinião, são vocês os que iriam a lutar, são vocês os que morreriam, não somos nós. Nós sabemos o que faremos, e o que estamos dispostos a fazer; mas isso só pode ser decidido por vocês.”. Ai estava a mais extrema manifestação de respeito ao resto dos movimentos e não a tentativa de impor baseados nos nossos conhecimentos e experiências e o enorme respeito que sentiam por nossa Revolução para saber o peso de nossos pontos de vista.”



“Acho que a experiência do primeiro Estado Socialista, Estado que deveu compor-se e jamais destruir-se, tem sido muito amarga. Não pensem que não temos pensado é muitas ocasiões nesse fenômeno incrível mediante o qual uma das mais poderosas potências do mundo, que conseguiu equiparar sua força com a outra superpotência, um país que pagou com a vida de mais de 20 milhões de cidadãos a luta contra o fascismo, um país que esmagou ao fascismo, desabou como se desabou.



“Será que as Revoluções estão chamadas a se derrubarem, ou será que os homem podem fazer com que as revoluções se derrubem?. Os homens podem ou não impedir, a sociedade pode ou não pode impedir que as revoluções se derrubem?. Até poderia acrescentar-lhes uma pergunta imediatamente. Acham que este processo revolucionário, socialista, pode ou não derrubar-se? (Exclamações de: “Não!”) Pensaram nisso alguma vez? Pensaram-no com profundeza?



“Sabiam de todas estas desigualdades que estou falando? Conheciam certos hábitos generalizados? Sabiam que alguns ganhavam no mês quarenta ou cinqüenta vezes o que ganha um desses médicos que está lá nas montanhas da Guatemala, membro do contingente “Henry Reeve”? Pode estar noutros lugares distantes da África. Pode até estar a milhares de metros de altura, nas cordilheiras do Himalaia salvando vidas e ganha 5%, 10% do que ganha um ladrão destes que vende gasolina aos novos ricos, que desvia recursos dos portos em caminhões e por toneladas, que rouba nas lojas de divisa, que rouba num hotel cinco estrelas, talvez trocando a garrafa de rum por outra que procurou, a põe no lugar da outra e arrecada todas as divisas com as que vendeu os goles que podem sair da garrafa de um tipo de rum mais ou menos bom.”



“Também se pode explicar por que hoje já não talhamos mais a cana, não há quem a corte e as pesadas máquinas destroem os canaviais. Os abusos do mundo desenvolvido e os subsídios levaram os preços do açúcar que foram, naquele mercado mundial, o preço do lixeiro de açúcar, enquanto que em Europa pagavam duas ou três vezes mais a seus agricultores.”



“Eles estão aguardando um fenômeno natural e absolutamente lógico, que é o falecimento de alguém. Neste caso me honraram consideravelmente ao pensar em mim. Será uma confissão do que não conseguiram fazer desde há muito tempo. Se eu fosse um vaidoso, poderia ficar orgulhoso de que aqueles caras digam que têm que aguardar até que eu morra, e esse é o momento. Aguardar que morra, todos os dias inventam alguma coisa, que sim Castro tem isto que se tem o outro, se tal o mais qual enfermidade. ”



“Sim, eu tive uma queda muito grande, ainda estou reabilitando-me deste braço (assinala), e vai melhorando. Agradeço muitíssimo as circunstancias em que se quebrou meu braço, porque me obrigou a ter ainda mais disciplina, mais trabalho, a dedicar mais tempo, a dedicar quase as 24 horas do dia a meu trabalho, se já eu estava dedicando-as durante o período especial, agora dedico cada segundo e luto mais do que nunca...”



”Esse caso é como aquele do cara (fazia referência à revista Forbes)que descobriu que eu era o homem mais rico do mundo.”



“Eu fiz uma pergunta para vocês, companheiros estudantes, que não esqueci, nem sequer, e pretendo que vocês não a esqueçam nunca, e é a pergunta que faço diante das experiências históricas conhecidas e peço-lhes a todos, sem exceção, que reflitam: Pode ser ou não irreversível um processo revolucionário? Quais seriam as idéias ou o grau de consciência que tornariam impossível a reversão de um processo revolucionário?”



“O poder que tem uma liderança quando goza da confiança do povo, quando confiam na sua capacidade. São terríveis as conseqüências de um erro daqueles que têm maior autoridade, e isso aconteceu em mais de uma ocasião nos processos revolucionários.



“São coisas que a gente medita. Estuda a história, o quê aconteceu aqui, o quê aconteceu lá, o quê aconteceu lá, medita sobre o que aconteceu hoje e sobre o quê acontecerá amanhã, para onde conduzem os processos de cada país, para onde vai o nosso, como marchará o nosso, que papel desempenhará Cuba nesse processo.”



“Foi por essa razão que eu disse aquela palavra de que um dos nossos maiores erros no começo, e muitas vezes ao longo da Revolução, foi acreditar que alguém sabia como se construía o socialismo.”



“Qual sociedade seria esta, ou que digna de alegria quando nos reunimos em um lugar como este, um dia como este, se não soubéssemos o mínimo do que se deve saber para que nesta ilha histórica, este povo heróico, este povo que escreveu páginas não escritas por nenhum outro povo na história da humanidade preserve a Revolução? Vocês não pensem que quem lhes fala é um vaidoso, um charlatão, alguém que gosta do bluff. Transcorreram 46 anos e a história deste país é conhecida, os habitantes deste país a conhecem; a daquele império vizinho também, o seu tamanho, seu poder, sua força, sua riqueza, sua tecnologia, seu domínio sobre o Banco Mundial, seu domínio sobre o Fundo Monetário, seu domínio sobre as finanças mundiais, esse país que tem-nos imposto o mais brutal e incrível bloqueio, sobre o qual se falou lá nas Nações Unidas e Cuba recebeu o apóio de 182 países que passaram e votaram livremente ultrapassando os riscos de votar abertamente contra esse império. [...] Não apenas fizemos esta Revolução com o nosso próprio risco durante muitos anos, em determinado momento, tínhamos a certeza de que jamais se fossemos atacados direitamente pelos Estados Unidos lutariam por nós, nem podíamos pedi-lo.” Fazia referência à URSS.



“Com o desenvolvimento das tecnologias modernas era ingênuo pensar ou pedir ou esperar que aquela potência lutara contra a outra, se intervinha nesta pequena ilha que está aqui a 90 milhas, e tivemos a certeza total de que nunca receberíamos esse apóio. Ainda mais: um dia lhes perguntamos isso direitamente vários anos antes do seu desaparecimento: ‘Digam-no-lo francamente’ ‘Não.’ Responderam o que já sabíamos que íamos a responder, e então, mais do que nunca, aceleramos o desenvolvimento da nossa concepção e aperfeiçoamos as idéias tácticas e estratégicas com as que triunfou esta Revolução e venceu, com uma força que inicia a sua luta com sete homens armados contra um inimigo que dispunha 80 000 homens entre marinheiros, soldados, policiais, etc, tanques, aviões, todo tipo de armas modernas que naquela época podia-se possuir, era infinita a diferença entre nossas armas e as armas que tinha aquela força armada treinada pelos Estados Unidos, apoiada pelos Estados Unidos e fornecida pelos Estados Unidos.”



“Hoje temos muito mais do que sete fuzis, temos todo um povo que aprendeu a utilizar as armas, todo um povo que, apesar de nossos erros, tem tal nível de cultura, de conhecimento e de consciência que nunca permitiria que este país se tornasse novamente em uma colônia deles.



“Este país pode autodestruir-se a si mesmo; esta Revolução pode destruir-se, são eles os que hoje não podem destruí-la; nós sim, nós podemos destruí-la e seria a nossa culpa.



“Tenho o privilégio de viver muitos anos, isso não é um mérito, mas é uma excepcional oportunidade para dizer-lhes a vocês, a todos os líderes da juventude, a todos os líderes das organizações de massa, a todos os líderes do movimento operário, dos Comitês de Defesa da Revolução, das mulheres, dos camponeses, dos combatentes da Revolução organizados em todas as partes, lutadores durante anos que em cifra de centenas de milhar cumpriram gloriosas missões internacionalistas..”



“... é impressionante ver os mais humildes setores sociais deste país convertidos em 28 000 trabalhadores sociais e centenas de milhar de estudantes universitários, universitários! Vejam que força! E em breve veremos também em ação a aqueles que formamos há pouco tempo na cidade esportiva.



“A cidade esportiva nos ensina sobre o marxismo-leninismo; ensina-nos sobre as classes sociais; a cidade esportiva reuniu há pouco tempo aproximadamente a 15 000 médicos e estudantes de medicina e a alguns da ELAM, e outros que vieram inclusive de Timor Leste para estudar medicina, nunca poderá se esquecer. Não acredito que se trate de um sentimento pessoal de qualquer de nós.



“Nunca esta sociedade esquecerá essas imagens das 15 000 batas brancas que ali se reuniram no dia em que se formaram os estudantes de medicina, no dia em que foi criado o contingente “Henry Reeve”, que já em um número considerável enviou suas forças para os lugares onde aconteceram fenômenos excepcionais em um tempo muito mais breve do que imaginávamos.



“Permitam-me dizer-lhes que hoje praticamente o capital humano é, ou avança aceleradamente para tornar-se o mais importante recurso do país, ultrapassando inclusive a o resto todos juntos. Não estou exagerando.”



“Por ai descobrimos postos de gasolina privados, alimentados com o combustível dos motoristas destes caminhões-cisterna.



“Algo que é conhecido é que muitos dos caminhões do Estado vão por um lado ou por outro e sempre alguém aproveita a ocasião para visitar um parente, um amigo, uma família ou a namorada.



“Lembro aquela vez, há vários anos antes do chamado período especial que vi rápido pela Quinta Avenida uma suntuosa carregadeira frontal Volvo quase acabado de comprar, que naquela época custavam 50 000 ou 60 000 dólares. Senti curiosidade de saber para onde é que ia a aquela velocidade e pedi ao escolta: “Espera, pergunta-lhe para onde vai, que te fale francamente.” E confessou que ia visitar à namorada com aquele Volvo, que corria a toda velocidade pela Quinta Avenida.



“Vereis coisas, Mio Cid – dizem que alguém disse lá, seria Cervantes-, que farão falar às pedras.



“... coisas como essas aconteceram. E, geralmente, o sabemos tudo, e muitos disseram: “A Revolução não pode; não, isto é impossível; não, ninguém pode solucionar isto.” Sim, isto vai solucioná-lo o povo, isto vai solucioná-lo a Revolução e de que maneira. É apenas uma questão de ética? Sim, é, antes de mais, uma questão de ética; mas, além disso, é uma questão econômica vital.



“Este é um dos povos mais esbanjadores de energia combustível do mundo. Aqui ficou demonstrado, e vocês com toda a honradez o disseram, e é muito importante. Ninguém sabe quanto custa a eletricidade, ninguém sabe quanto custa a gasolina, ninguém sabe o valor que tem no mercado. Ia dizer-lhes que é muito triste quando uma tonelada de petróleo pode custar 400 e de gasolina 500, 600, 700 e por vezes chegou a atingir 1000, e é um produto cujo preço não vai diminuir, alguns apenas circunstancialmente e não por muito tempo, porque o produto físico se esgota...”



“Nós vemos as nossas minas de níquel, que vão deixando o buraco onde houve muito níquel. Isso também está acontecendo com o petróleo, as grandes jazidas já apareceram e cada vez são menos. Esse é um tema sobre o qual pensamos muito.”



“... mas existiam, se não me engano aproximadamente 3 000 entidades que operavam divisas convertíveis e decidiam com bastante amplitude as despesas em divisas convertíveis de seus lucros, se compro isto ou aquilo, se pintar, se comprar melhor um carrinho e não continuo com o carrinho velho que temos. Nós compreendemos que nas condições deste país essa situação devia ser ultrapassada...”



Houve simplesmente que fechar as usinas açucareiras ou íamos para a Fossa de Bartlett. O país tinha muitos economistas, muitos, muitos e não tento criticá-los, mas com a mesma honestidade que falo sobre os erros da Revolução posso perguntar-lhes por que não descobrimos que a manutenção daquela produção, quando havia tempo que a URSS se derrubou, o preço do petróleo era de 40 dólares por barril e o preço do açúcar estava muito baixo, por que não se racionalizava aquela indústria e por que era preciso semear 20 000 (1 caballeria = 13,6 hectares) esse “caballerias” ano, quer dizer, quase 270 000 hectares para o qual é preciso lavrar a terra com tratores e charrúas pesadas, semear uma plantação de cana que depois é necessário limpar com máquinas, fertilizar com custosos erbicidas, etc., etc, etc



“Havia muito tempo que a URSS tinha-se derrubado, ficamos sem combustível do dia para a noite, sem matérias-primas, sem alimentos, sem produtos para a higiene pessoal, sem nada. Talvez fosse preciso que acontecesse o que aconteceu, talvez foi necessário que sofrêssemos o que sofremos, dispostos, como estávamos a dar a vida cem vezes antes de entregar a Pátria, antes de entregar a Revolução...”



“Talvez foi necessário porque temos cometido muitos erros, e são os erros que estamos tentando retificar, se quiserem, que estamos retificando.”

“...sem abuso de poder!, nada justificaria jamais que algum de nós tentara abusar do poder. Sim, devemos atrever-nos, devemos ter coragem de dizer as verdades, [...] você não está obrigado a dizê-las todas de uma vez, as batalhas políticas tem a sua táctica, a informação adequada, seguem também o seu caminho. [...] Não importa o que digam os bandidos e as notícias que cheguem amanhã ou depois de amanhã, ri melhor quem ri por último.”



“A questão não é imprimir notas e distribuí-las sem terem equivalente em mercadorias ou serviços...”



“Finalmente demos as casas de presente, alguns as compravam, eram donos, pagaram 50 pesos mensais, 80 pesos, bom, segundo a troca, se o recebiam de Miami, eram aproximadamente US$ 3.00; alguns vendiam-na, US$ 15.000, US$ 20.000, no final dos anos a tinham pagado com menos de US$ 500.



“Pode o país pode resolver seu problema de habitação presenteando casas? Quem as recebia, o proletário, o humilde? Muitos humildes receberam a casa de presente e depois venderam-na ao novo rico. Quanto podia pagar o novo rico por uma casa? Isso é socialismo?



“Pode ser uma necessidade num momento determinado, também pode ser um erro, visto que o país sofreu um golpe esmagador, quando de um dia para o outro aconteceu o derrubamento da grande potência e nos deixou sozinhos, e perdemos todos os mercados para o açúcar e deixamos de receber víveres, combustível, até madeira para poder enterrar de maneira cristã os nossos mortos. E todos achavam: “Isso se derruba”, e os muito estúpidos ainda acreditam nisso, que isto vai cair e se não acontece agora, depois. E quanto mais ilusões tenham e mais pensem, mais devemos pensar nós, e mais conclusões devemos tirar, para que a derrota jamais atinja este glorioso povo que tanto confia em nós todos.”



“Que o império não venha a criar cárceres para torturar homens e mulheres progressistas do resto do continente que se ergue atualmente decidido rumo à segunda e definitiva independência!”



“É melhor que não fique nada do nosso passado nem de nenhum de nossos descendentes antes que tenhamos que viver novamente uma vida tão repugnante e miserável.”



“Enganaram o mundo. Quando surgiram os meios de comunicação em massa apoderaram-se das mentes e governavam não só com mentiras, mas também com reflexos condicionados. Não é o mesmo uma mentira que um reflexo condicionado: a mentira afeta o conhecimento; o reflexo condicionado afeta a capacidade de pensar. E não é o mesmo estar desinformado que perder a capacidade de pensar, porque já criaram-te os reflexos: “Isto é mau, isto é mau; o socialismo é mau; o socialismo é mau”, e todos os ignorantes e todos os pobres e todos os explorados dizendo: “O socialismo é mau” “O comunismo é mau” e todos os pobres, todos os explorados e todos os analfabetos repetindo: “O comunismo é mau. ”



“Cuba é má, Cuba é má”, disse o império, o disse em Genebra, o disse em vários lugares, e todos os explorados deste mundo, todos os analfabetos e todos os que não recebem atendimento médico, nem educação, nem te emprego garantido, que não têm nada garantido: “A Revolução Cubana é má, a Revolução Cubana é má”.



“De que falam? Que faze o analfabeto? Como pode saber que o Fundo Monetário Internacional é bom ou mau, e que os lucros são mais altos, e que o mundo é submetido e saqueado incessantemente através de mil métodos desse sistema? Ele não sabe.



“Não ensinam a ler nem a escrever as massas, todos os anos gastam um milhão de milhões em publicidade; e não é só o que gastam, senão que gastam criando reflexos condicionados, porque ele comprou Palmolive; aquele, Colgate; mais outro, sabonete Candado, porque, simplesmente, o repetiram cem vezes, associaram-no a uma imagem bonita, semearam-lhe, talharam-lhe o cérebro. Eles, que falam tanto a respeito da lavagem de cérebro, talham-no, dão-lhe forma, tiram ao ser humano a capacidade de pensar; e se fizessem isso com alguém formado na universidade que pode ler um livro, seria menos grave.



“O que é que pode ler o analfabeto? Como é que percebe que o estão enganando? Como á que percebe que a maior mentira do mundo quer dizer que isso é democracia, o sistema podre que impera aí e na maior parte, por não dizer em quase todos os países que copiaram este sistema? [...] Isso é o que faz com que a gente seja, transcorrido algum tempo, ainda mais revolucionário do que era quando ignorava muita coisa e apenas conhecia os elementos da injustiça e da desigualdade.



“No momento em que lhes digo isto não estou teorizando, embora tenhamos que teorizar; estamos atuando, marchamos visando uma mudança total de nossa sociedade.”



“O preço do petróleo não se corresponde atualmente com nenhuma lei de oferta e demanda; seu preço depende de outros fatores: da escassez, do esbanjamento colossal dos países ricos, e ele não tem nada a ver com nenhuma lei econômica. É sua escassez perante uma crescente e extraordinária demanda.”



“Instamos o povo todo a que coopere nesta grande batalha, que não é só a batalha do combustível, da eletricidade, é a batalha contra todos os roubos, de qualquer tipo, em qualquer lugar.”





“Não tenho nada contra ninguém, mas também não tenho nada contra a verdade. Não me casei com a mentira, para aquele que se zangar, sinto muito, mas posso lhe advertir de antemão que perderá a batalha, e não será um ato de injustiça nem de abuso de poder.”



“Você gasta finalmente US$ 1,9 por cada 300 quilowatts de eletricidade; quer dizer, um preço de US$ 0,63 centavos por um quilowatt cubano de eletricidade. Que maravilha!



“Quanto gasta o povo de Cuba, por culpa desse dólar que enviaram a você de lá? Porque este não foi um dólar que você ganhou, ou um peso, trabalhando [...] te mandam de lá, alguém que foi sadio, tudo o que estudou foi gratuito desde que nasceu, não está doente, são os cidadãos mais saudáveis que chegam aos Estados Unidos, têm uma lei de ajuste, e, além disso, lhe proíbem enviar remessas.



“Lógico que você não gastou nem um centavo do que lhe enviaram em medicina, a medicina está subsidiada, se a comprou numa farmácia, essa que não se levaram nem venderam por ai, você gastou 10% do que custam em divisas. Se você foi para o hospital e talvez o operaram do coração, do tornozelo, sua operação pode custar US$ 1.000, US$ 2.000, US$ 10.000, lá nos Estados Unidos se você sofreu um enfarte e lhe colocam um válvula, pode ser o que lhe custou a um empregado nosso lá na Repartição de Interesses, US$ 80.000. Você jamais deixou de receber atendimento; podem existir alguns maus-tratos num hospital, mas, você freqüentou algum hospital onde não foi atendido?



“... um dia [...] a Revolução, com os instrumentos desenvolvidos pela técnica, poderá saber onde se encontra cada caminhão, em qualquer lugar, em qualquer rua. Ninguém vai poder fugir no caminhão e ir visitar a tia, [...] a noiva. Não é que seja mau visitar o familiar, o amigo, a noiva, mas não no caminhão destinado para o trabalho...”



“É preciso aplicar também a máxima racionalidade no salário, nos preços, nas aposentadorias e pensões. Zero esbanjamento. [...]. Não somos um país capitalista, em que tudo foi deixado ao azar.



“Subsídios ou gratuidade só nas coisas essenciais e vitais. [...] E com que pagamos os custos? [...] Tudo isso está ao nosso alcance, tudo pertence ao povo, a única coisa não permissível é esbanjar riquezas de forma egoísta e irresponsável.



“Realmente, minha intenção não era ministrar uma conferência sobre temas tão sensíveis, mas teria sido um crime não aproveitar essa oportunidade para dizer algumas coisas que têm a ver com a economia, com a vida material do país, com o destino da Revolução, com as idéias revolucionárias, com as razões pelas quais iniciamos esta luta, com a força colossal que temos hoje, o país que somos e poderemos continuar sendo, e muito mais do que somos.”



“Falo a vocês com toda a confiança com que lhes posso falar.”



“...o país terá muito mais, mas não será jamais uma sociedade de consumo, será uma sociedade de conhecimentos, de cultura, do desenvolvimento humano mais extraordinário que possa ser concebido, desenvolvimento da cultura, da arte, da ciência [...] com uma plenitude de liberdade que ninguém poderá tolher. Isso sabemos hoje, não é preciso proclamá-lo, embora sim lembrá-lo.”



“Ninguém deve ter direito de fabricar armas nucleares. Ainda menos o privilégio que pretende ter o imperialismo para impor seu domínio hegemônico e tirar aos países do Terceiro Mundo seus recursos naturais e matérias-primas.”



“Deve acabar no mundo a prepotência, os abusos, o império da força e do terror. Este desaparece diante da ausência total de medo e cada vez são mais os povos que têm menos medo, cada vez serão mais os que se revoltem e o império não poderá sustentar o infame sistema que ainda sustenta.”



“É justo demais lutar por isso, e por isso devemos empregar todas nossas energias, todos nossos esforços, nosso tempo todo, para poder dizer na voz de milhões ou de centenas ou de bilhões. Vale a pena ter nascido! Vale a pena ter vivido!”



Foi assim que conclui aquele discurso, que hoje ratifico novamente.



Muito obrigado



17 de novembro de 2010

A NATO, GENDARME MUNDIAL

Reflexões do companheiro Fidel



Muitas pessoas sentem náuseas ao escutar o nome dessa organização.

Na sexta-feira 19 de novembro de 2010 em Lisboa, Portugual, os 28 membros dessa belicosa instituição, engendrada pelos Estados Unidos, decidiram criar o que com cinismo qualificam de “a nova NATO”.

Ela surgiu despois da segunda Guerra Mundial como instrumento da Guerra Fria desencadeada pelo imperialismo contra a União Soviética, o país que pagou com dezenas de milhões de vidas e uma colossal destruição a vitória sobre o nazismo.

Contra a URSS, os Estados Unidos mobilizaram, junto a uma parte sadia da população européia, à extrema direita e toda a escória nazifascista da Europa, cheia de ódio e disposta a tirar proveito dos erros cometidos pelos próprios dirigentes da URSS, depois de morte de Lênin.

O povo soviético, com enormes sacrifícios, foi capaz de manter a paridade nuclear e apoiar a luta de libertação nacional de numerosos povos contra os esforços dos Estados europeus por manter o sistema colonial imposto pela força durante séculos; Estados que no pós-guerra se aliaram ao império ianque, quem assumiu o comando da contra-revolução no mundo.

Em apenas 10 dias — menos de duas semanas —, a opinião mundial recebeu três grandes e inesquecíveis lições: o G-20, a APEC e a NATO, em Seul, Yokohama e Lisboa, de modo que todas as pessoas honestas que saibam ler e escrever, e cujas mentes não tenham sido mutiladas pelos reflexos condicionados do aparato midiático do imperialismo, possam ter uma idéia real dos problemas que afetam hoje a humanidade.

Em Lisboa não foi dita uma palavra que fosse capaz de transmitir esperanças a bilhões de pessoas que sofrem a pobreza, o subdesenvolvimento, a deficiência alimentar, a falta de habitação, saúde, educação e emprego.

Pelo contrário, o vaidoso personagem que figura como chefe da máfia militar da NATO, Anders Fogh Rasmussen declarou, em tom de pequeno führer nazista, que o “novo conceito estratégico” era para “atuar em qualquer lugar do mundo”. Não foi sem razão que o governo da Turquia esteve a ponto de vetar sua designação quando Fogh Rasmussen — neoliberal dinamarquês —, como Primeiro-Ministro da Dinamarca, usando o pretexto da liberdade de imprensa, defendeu em abril de 2009 os autores de graves ofensas ao profeta Maomé, uma figura respeitada por todos os crentes muçulmanos.

Não poucos no mundo lembram as estreitas relações de cooperação entre o Governo da Dinamarca e os “invasores” nazistas durante a Segunda Guerrra Mundial.

A NATO, ave de rapina chocada nas saias do império ianque, dotada inclusive de armas nucleares táticas que podem ser até várias vezes mais destrutivas do que a que fez com que desaparecesse a cidade de Hiroshima, está comprometida pelos Estados Unidos na guerra criminosa do Afeganistão, mais complexa ainda do que a aventura de Kossovo e a guerra contra a Sérvia, onde a cidade de Belgrado foi massacrada e estiveram a ponto de sofrer um desastre se o governo de aquele país se tivesse mantido firme, em vez de confiar nas instituições de justiça européia em Haia.

A inglória declaração de Lisboa, em um de seus pontos afirma de forma vaga e abstrata:

“Apoio à estabilidade regional, aos valores democráticos, à segurança e à integração no espaço euro-atlântico nos Bálcãs.”

“A missão em Kossovo é orientada a uma presença menor e mais flexível.”

Agora?

Tampouco a Rússia poderá esquecer tão facilmente: o fato real é que quando Yeltsin desintegrou a URSS, os Estados Unidos avançaram as fronteiras da NATO e suas bases de ataque nuclear para o coração da Rússia desde a Europa e a Ásia.

Essas novas instalações militares ameaçavam também a República Popular da China e outros países asiáticos.

Quando aconteceu aquilo em 1991, centenas de SS-19, SS-20 e outras poderosas armas soviéticas podiam alcançar em questão de minutos as bases militares dos Estados Unidos e da NATO na Europa. Nenhum Secretário Geral da NATO se teria atrevido a falar com a arrogância de Rasmussen.

O primeiro acordo sobre limitação de armas nucleares foi assinado em data tão anticipada como o 26 de maio de 1972, pelo presidente dos Estados Unidos Richard Nixon e pelo Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, Leonid Brezhnev, com o objetivo de limitar o número de mísseis antibalísticos (Tratado ABM) e defender alguns pontos contra mísseis com carga nuclear.

Em 1979 Brezhnev e Carter assinaram em Viena novos acordos conhecidos como SALT II, mas o Senado dos Estados Unidos se negou a ratificar esses acordos.

O novo rearmamento promovido por Reagan, com a iniciativa de Defesa Estratégica, pôs fim aos acordos SALT.

O gasoduto da Sibéria já tinha sido explodido pela CIA.

Pelo contrário, em 1991 um novo acordo foi assinado entre Bush pai e Gorbachov, cinco meses antes do colapso da URSS. Ao se produzir tal acontecimento, o campo socialista já não existia. Os países que o Exército Vermelho tinha libertado da ocupação nazista não foram capazes sequer de manter a independência. Governos de direita que acederam ao poder se passaram com armas e petrechos à NATO, e caíram em mãos dos Estados Unidos. O da RDA, que sob a direção de Erich Honecker tinha realizado um grande esforço, não pôde vencer a ofensiva ideológica e consumista lançada desde a mesma capital ocupada pelas tropas ocidentais.

Como dono virtual do mundo, os Estados Unidos incrementaram sua política aventureira e guerreirista.

Devido ao processo bem manipulado, a URSS se desintregou. O golpe de graça foi dado por Boris Yeltsin no dia 8 de dezembro de 1991 quando, em sua condição de presidente da Federação Russa, declarou que a União Soviética tinha deixado de existir. No dia 25 desse mesmo mês e ano, a bandeira vermelha da foice e o martelo foi arriada do Kremlin.

Um terceiro acordo sobre armas estratégicas foi assinado então entre George H. W. Bush e Boris Yeltsin, no dia 3 de janeiro de 1993, que proibia o uso dos Mísseis Balísticos Intercontinentais (ICBM suas siglas em inglês) de ogivas múltiplas. Foi ratificado pelo Senado dos Estados Unidos no dia 26 de janeiro de 1993, com uma margem de votos de 87 contra 4.

A Rússia herdava a ciência e a tecnologia da URSS — que apesar da guerra e dos enormes sacrifícios foi capaz de equiparar seu poder com o imenso e rico império ianque —, a vitória contra o fascismo, as tradições, a cultura, e as glórias do povo russo.

A guerra da Sérvia, um povo eslavo, tinha atingido duramente a segurança do povo russo, coisa que nenhum governo podia ignorar.

A Duma russa — indignada pela primeira guerra do Iraque e a de Kossovo na qual a NATO massacrou o povo sérvio —, se negou a ratificar o START II e não assinou esse acordo até o ano 2000, e nesse caso, para tentar salvar o tratado ABM que os ianques para essa data não lhes interessava manter.

Os Estados Unidos tratam de utilizar seus enormes recursos midiáticos para manter, enganar e confundir a opinião pública mundial.

O governo desse país atravessa uma etapa difícil como conseqüência de suas aventuras bélicas. Na guerra do Afeganistão estão comprometidos os países da NATO sem exeção alguma, e vários outros do mundo, a cujos povos resulta odiosa e repugnante a carnificina em que estão envolvidos em maior ou menor grau países ricos e industrializados como o Japão e a Austrália, e outros do Terceiro Mundo.

Qual a essência do acordo aprovado em abril deste ano pelos Estados Unidos e a Rússia? Ambas as partes se comprometem a reduzir o número de ogivas nucleares estratégicas a 1 550. Das ogivas nucleares da França, do Reino Unido e de Israel, todas capazes de golpear a Rússia, não se diz uma palavra. Das armas nucleares táticas, algumas delas com muito mais poder do que a que fez com que desaparecesse a cidade de Hiroshima, também não. Não se faz referência à capacidade destrutiva e letal de numerosas armas convencionais, as radioelétricas e outros sistemas de armamentos aos quais os Estados Unidos dedicam seu crescente orçamento militar, superior aos de todas as outras nações do mundo juntas. Ambos os governos conhecem, e talvez outros muitos daqueles que ali se reuniram, que uma terceira guerrra mundial seria a última. Que tipo de expectativas podem criar-se os membros da NATO? Qual a tranqüilidade que dessa reunião deriva para a humanidade? Que benefício para os países do Terceiro Mundo, e inclusive para a economia internacional, é possível esperar?

Não podem sequer oferecer a esperança de que a crise econômica mundial possa ser ultrapassada, nem quanto duraria essa melhoria. A dívida pública total dos estados Unidos, não só a do governo central, mas também do resto das instituições privadas desse país, eleva-se já a uma cifra que iguala o PIB mundial de 2009, que ascendia a 58 milhões de milhões de dólares. Por acaso os que se reuniram em Lisboa se perguntaram de onde saíram esses fabulosos recursos? Simplesmente, da economia de todos os demais povos do mundo, aos quais os Estados Unidos entregaram papéis convertidos em divisas que ao longo de 40 anos, unilateralmente, deixaram de ter respaldo em ouro e agora o valor desse metal é 40 vezes superior. Esse país ainda dispõe de poder de veto no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial. Por que isso não foi discutido em Portugal.?

A esperança de retirar do Afeganistão as tropas dos Estados Unidos, da NATO e de seus aliados, é idílica. Terão que abandonar esse país antes de que derrotados entreguem o poder à resistência afegã. Os próprios aliados dos Estados Unidos começam a reconhecer já que poderiam transcorrer dezenas de anos antes de finalizar essa guerra, a NATO estará disposta a permanecer ali esse tempo? Permiti-lo-ão os próprios cidadãos de cada um dos governos ali reunidos? Não esquecer que um país de grande popuplação, o Paquistão, compartilha uma fronteira de origem colonial com o Afeganistão e uma percentagem não desprezível de seus habitantes.

Não critico Medvedev, faz muito bem em tentar limitar o número de ogivas nucleares apontadas para seu país. Barack Obama não pode inventar justificação alguma. Seria risível imaginar que esse colossal e custoso desdobramento do escudo nuclear antimíssil é para proteger a Europa e a Rússia dos foguetes iranianos, procedentes de um país que não possui sequer um artefato nuclear tático. Isso não se pode afirmar nem num livro de histórias em quadrinhos.

Obama já admitiu que sua promessa de retirar os soldados norte-americanos do Afeganistão poderia se dilatar, e os impostos aos contribuintes mais ricos ser suspensos de imediato. Depois do Prêmio Nobel haveria que conceder-lhe o prêmio ao “maior encantador de serpentes” que tenha existido jamais.

Tomando em conta a autobiografia de W. Bush, tornada já “Best Sellers”, que algum redator inteligente elaborou para ele, por que não o convidaram a Lisboa? Certamente a extrema direita, o “Tea Party” da Europa, estaria feliz.

Fidel Castro Ruz

21 de novembro de 2010

20h36